O Mandarim

Clelia Romano- copyright 2010


Tudo começou de forma trivial, exatamente como no livro de Eça, O Mandarim, uma interessante e surrealista história de um pobre alferes de Lisboa que, a pedido do Diabo, fez soar uma campainha.

A esse simples e singelo ato, seguiu-se a morte de um idoso mandarim na China, que tombou imediatamente sobre a pipa amarela que construíra.
Depois de um mês o alferes era agraciado com uma fortuna incalculável deixada pelo falecido chinês. Tornou-se rico, mais que rico, milionário.

Tudo por causa de um simples e casual ato, como fazer soar sua campainha de mesa. Em que tal fato poderia mudar a música das esferas?

Pois a morte de mamãe também foi assim, começou de maneira simples e prosaica.
Ela e meu pai vieram me visitar certo domingo.

Sentamos no jardim. O dia estava claro e certo ar de sol insinuava-se, apesar do frio do inverno que começava.

Então, com simplicidade, ela disse que sentia dores no ventre.

A partir daí, como se uma determinada nota tivesse soado, o universo ressentiu-se e a partir daquele toque nada foi como antes.
Os dias se passaram e ela piorou.
Fomos ao médico.

Aguardamos os três na sala de espera, ela tensa e amedrontada. Imersa em outra realidade, asfixiada em medo, dor e pressentimento, percebi que aquele ser eu amva ha tantos anos era frágil.
Veio o pedido da ressonância magnética, a burocracia com o plano de saúde e afinal a noticia de um tumor.

Outra consulta.
-Não é nada, mãe. É benigno, com certeza: fosse maligno, no lugar em que se instalou, você não estaria aqui, com essa boa aparência!
-Você é meu esteio.-ela dizia

Esteio meio manco, meio cego, meio capenga,pobre de mim. Pobre de nós duas.
A operação foi marcada para o final de agosto.


Prevendo desditas e mau agouro, chegou a manhã da internação: ela trouxe consigo e me deu, enrodilhado em um saco de tecido macio e florido que ela tinha costurado com um roupinha antiga de minha filha, a corrente de ouro que costumava usar nas festas.
-Dei uma para sua irmã. Essa é sua, filha.

Mamãe não devia ter feito isso.É assim que as coisas vão sucedendo.
Porque o mandarim não morreu de forma fulminante.
Nossas palavras são rápidas, nossas descrições instantâneas, mas os fatos têm como senhor o tempo.

Como num filme, a caída do mandarim ao solo, trajando seus ricos e nobres trajes chineses, poderia ser dividida em inúmeros quadros: a surpresa da mente ante a iminência do destino, o desconforto num lado ou no outro do corpo, a falha da circulação nas pernas, a inclinação da queda a trinta graus, a quarenta e cinco, a noventa, e assim por diante, até atingir o estado horizontal.

A seguir a perda dos sentidos, a falta de respiração e, por ultimo, a morte do ser que fora em vida um mandarim.

Pois a operação de mamãe foi tudo, menos um sucesso. Embora que, se pensarmos de maneira mais ampla, no círculo vital há sempre êxito: a morte significa vida e a vida nada mais é que a seqüência de infinitas mortes. Mas, não vou me delongar em microorganismos, bactérias, fungos, ecossistema, etc. só para não falar do que me dói tanto.
Pois ela, sempre tão composta, tão elegante, ficou fora de si com a anestesia. Falava bobagens, gritava absurdos e alucinava. Delirava em voz alta, mostrando as gengivas nuas.
Mantive minha couraça, sou muito insistente em questão de esperança. E não deixei de procurar o médico, que sequer veio dar o relatório à família após a cirurgia.

Só consegui encontrá-lo à noite no corredor da lanchonete do hospital e gritei por ele, antes que me escapasse.
Com ar ocupado ele se esgueirava e tergiversava, furtando-se a responder o que eu não suportaria escutar.

Prensei o homem com perguntas agudas como espadas, exigindo respostas objetivas. Então, como ultimo recurso, os olhos dele se desviaram.
Pois aquele homem que manuseava a vida e a morte não teve coragem de ver minha dor.

No lapso de tempo em que ele pareceu ficar absorto no chão frio do corredor de hospital eu soube a verdade.
E então o mandarim da história de Eça, trajado de seda azul, começou a desabar, sem ruído aparente, abraçado em seu papagaio amarelo.

Ainda hoje, depois de tantos anos decorridos, algumas vezes e de maneira inesperada, o corpo do nobre chinês, morto e vestido de sedas, assombra-me,impedindo-me a passagem, ali, atravessado no jardim de minha casa, perto das cadeiras em que nos sentamos naquela tarde invernal.

Ali, quando, de maneira desavisada e corriqueira, simples e trivial, mamãe tocou a campainha do universo.


Clélia Romano
copyright 2010